Na nossa vida há alturas em que sentimos que perdemos um pedaço de nós. Sentimo-nos um puzzle e sem contarmos, sem qualquer aviso, sentimos que perdemos uma peça; sentimos aquele vazio. Quando acabamos um namoro, quando temos uma grande discussão com um amigo, quando mudamos de vida, quando vamos para um sítio novo, quando… A partir daí o tempo custa a passar, e pensamos que nos encontramos no corpo de uma nova existência.
No outro dia, vi um anúncio. Nesse dia vi o novo anúncio da Leopoldina: cortaram-lhe as asas. Resumidamente, nesse momento senti que perdi uma peça do meu puzzle. Senti angústia dentro de mim, frustração, o desvanecimento de todos os Natais em que via a Leopoldina a voar… com asas. Não sei se isto foi um ataque pessoal à minha pessoa, por ter falado mal da Popota, se foi um acto de vingança, ou se foi uma tentativa de me fazer sofrer. Ao ver aquela criatura frágil desmembrada, custou-me. Mas digo-o, tal como num processo de luto, passei pelas 5 fases: ao princípio neguei, não quis acreditar; senti-me revoltado com a situação e decidi regatear mentalmente; senti-me em baixo, como na
depressão, mas agora estou na aceitação.
Eu estou na aceitação e vivo com isso. Vivo, porque afinal não é assim tão mau como isso. Dei por mim a olhar para a minha estimada Leo, e vejo nela uma certa dose de masculinidade. Aquele colete preto à Ethan da Missão Impossível, e aquelas calças à Indiana Jones que ela usa, dão-me a certeza que desta vez, após tantos anos ela vai conseguir salvar o Natal sem se magoar. É que, ao longo destes anos eu olhava para ela e temia por ela: aquele olhar frágil e meigo, com aquele corpo de avestruz, apertava-me o coração do medo que eu tinha que ela se pudesse magoar; que alguém lhe fizesse mal, tipo aquele cão, o Mauzão (dormia descansado quando o ouço foi roubado, mas o Mauzão acordou e o gato apanhou!).
Vivi este trauma, senti este medo como uma Mãe até aos meus 20 anos. Mas agora, com 20 e poucos anos, finalmente posso dizer que aquele ar de masculinidade que finalmente lhe impingiram faz-lhe bem. Por isso digo: se o corte das asas foi uma tentativa das altas patentes das cadeias de supermercados para me magoar por causa da Popota, eu digo: muito obrigado. Finalmente, posso dormir as minhas noites de Dezembro em paz, sabendo que a Leopoldina anda por aí e não se vai magoar.
p.s. eu bem podia fazer um post sobre o facto de a Leo não ter asas e a missão deste ano se chamar “Missão das Asas”, mas a ironia é demasiado óbvia.