Hoje lá fui mostrar os resultados dos últimos exames que fiz à Dra. Window, por causa da minha gravidez psicológica da passagem de ano. Tudo muito bem, fartei-me de esperar, enquanto pensava nas coisas que tinha para estudar para o exame de amanhã. Ela chama-me, eu vou, blá, blá, blá e então, de forma inesperada, sem qualquer noção do poder das palavras e sem qualquer sentido táctil, ela vira-se para mim de uma forma impecavelmente directa e pergunta-me: “Tens sempre essa cara de desgraçado?!”
O quê? Será que estou aqui para falar do meu fígado obeso ou do meu tacho de traumas? O que me chateia aqui não foi ela me ter deitado abaixo… quer dizer, um pouquinho, porque não gosto de ser deitado abaixo e ficar sem reacção para me defender, mas sim o facto de… ela talvez ter razão. Estes papos que eu tenho, literalmente, constantemente debaixo dos olhos, são de andar sempre de cara cansada como se fosse um desgraçado. O que me chateia é ela ter tido os… cojones para me ter dito a verdade.
Durante anos fui inocente o suficiente para ouvir as bocas sobre o “estás tão magro”, ou “precisas de comer”… Lembrando-me agora disso, reparo que devia ser inveja pela minha elegância e porte de rapaz naturalmente Danone. Então, nessa minha ingenuidade dizia para mim mesmo que tinha de engordar. Agora, sentindo-me confiante e confortável na minha pele, um acontecimento ilógico apodera-se de mim.
Os exames acabaram, e contra algumas das minhas previsões, consegui fazer todas as cadeiras. Em jeito de vitória, perfumei-me, e sobre o alcatrão fui ao encontro da Dra. Window para lhe mostrar os resultados das minhas análises da passagem de ano em que me senti fisicamente grávido. Ela, olhando-me nos olhos, revelou-me o facto que viola a lógica e razão: “Tens o fígado gordo.” O quê?! O fígado? Ao fim destes anos todos em tentei engordar, finalmente há alguma coisa a engordar e não sou eu, mas o meu fígado?
Mas o que é que ele tem que eu não tenho? Eu já vi um fígado num programa da Oprah com o Dr. Oz e os fígados não são das coisas mais bonitas que por aí andam. Não há neles uma textura apelativa disponível a usar cremes hidratantes ou auto-bronzeadores, ou duas maminhas sedutoras como as minhas, e também não são propriamente a coisa mais fofa e carinhosa. Cutty cutty! O que me choca é como este órgão traidor o conseguiu. Eu, criatura imaculada que neste momento se arrepende de ter deixado de cortar as unhas dos pés às quartas-feiras porque começo a sentir unha a encravar novamente, passei 702 dias sem comer bolachas! Não como batatas fritas de pacote há anos; como sempre sopa e repito a tigelada; raramente bebo outra coisa que não seja água às refeições…
Então, neste estado incrédulo e de impossibilidade perante a gordura do meu fígado, a Dra. prossegue: ”Vou-te dar dois meses para repetires os exames, por isso até lá, nada de comer fritos, peles de frango, óleos ou azeites…” Mas é que nem pensar! Cansei-me da comida saudável, porque a verdade é esta: ao fim do septingentésimo segundo dia, em que num acto de coragem e de grande fome eu trinquei aquela bolacha integral, houve em mim um misto de emoções orgásmicas.
A verdade é que desde esse momento, desde que as dores me passaram, perdi o controlo: desde esse momento, todas as noites antes de me deitar, pego num prato e preparo um cocktail de bolachas! Bolachas de água e sal, bolachas de chocolate, bolachas salgadas, línguas de gato moles que misturadas com iogurte de tutti-fruti ficam a saber a bolachas de limão. Não, não vou parar, porque eu já não quero engordar, e quem manda aqui sou eu, não um fígado revoltado. Não vou estar dois meses de regime, porque a verdade é esta: o meu nome é Kai João, tenho um fígado traidor gordo, e não vou estar à espera de autorização para comer o raio de uma alheira bem quentinha!
Há pequenas coisas que me deixam logo mal disposto. Hoje de manhã fui levar a minha Vó ao hospital para uma consulta; como ela não pode andar muito ia com o carro até ao pavilhão levá-la. Entro lá dentro e ao fundo tem uma cancela com um botão para se tirar o bilhete mais um microfone para onde o porteiro fala. Chego lá, começa o porteiro ou segurança a reclamar. Eu digo que vou levar a minha Vó à consulta e ele blá blá blá. Ele não tem mais nada e vem ter comigo; eu vejo-o pelo visor a bufar por tudo quanto era buraco, chega ao pé de mim e quase que me batia o homem. Supostamente eu tinha de parar o carro no meio da rua de um hospital, ir ter à casinha do segurança e pedir para entrar quando tem um microfone mesmo ao pé da cancela. Eu não tenho culpa que ele tenha acordado com PDM e que tenha cara de pai dele para o aturar. Até pareça que eu estava num motim. Esta gente vai para empregos que não gostam, e depois os outros que os aturem. Era o que faltava!
Depois do hospital veio cá a casa a Dra. Window. Ui, ela hoje vinha com a PDA. Nunca vi a mulher assim: sorriso para lá, sorriso para cá. Mas não foi só isto que me deixou quase estendido no chão a espumar da boca de choque: ela também deve ter uma rata de estimação. Não é que aquela mulher, à qual eu associo ao Dr. House pela bravura e falta de paciência para os doentes, que vê a minha gata e: “Uiiiiiii, qui horror!! Detesto! Detesto!” Oh minha vida, mais uma com medo da minha gata. Haja paciência!
Ela ao ir embora, eu nem a sabia se lhe estivava a mão ou a boca para a cumprimentar, por isso, disse xauzinho…
Noutro dia vi uma reportagem no 60 minutos em que falava da importância do sono: não dormir é uma epidemia por causa do mal que nos faz. Acontece que, apesar do calor, tenho dormido bem; suo que nem um porco a jogar à macaca antes de adormecer, mas durmo bem. Apesar disso, tenho andado quase a morrer pelos cantos, estou que nem posso. Se dormir faz bem e se eu durmo, e se tou de férias e não mexo uma palha, não era suposto estar cheio de power? Era… Hoje, dormi mal. Acordei às 4 da manhã como quem acorda ao meio-dia, sem sono nenhum; passava pouco das 7.30 e já estava no ginásio. E desta vez, que estava quase sem dormir, cheguei ao ginásio e ui… Maravilha! Parecia o Xuarzenieger! Fiz todos os exercícios, todos! Até mesmo aquele em que tenho de levantar os braços e tenho de pôr o peito pra fora todo inchado, até esse! Naquele momento se alguém me tivesse apertado o peito, ia jurar que saia leite de tão inchado que ele ficou. Depois olhava para o espelho e o Se e o Xy, que maravilhosos que eles estavam lol. Não dormi e fiz o ginásio todo, vá-se lá perceber.
A minha vó finalmente já está em casa; e quem veio cá dar uma consulta? A médica de família, a Dra. Window. Quando a campainha tocou, carago, arrebitei-me todo, dei um salto e lá fui estender-me na varanda a ler o meu livro para ela não me ver. E consegui estar o tempo todo sem ela me ver. Yes! E o que há aqui que não dá para perceber? Ela foi simpática. Simpática. Aquela meravigliosa creatura foi simpática. Talvez se sentisse intimidada por estar em minha casa, e eu ter uma grande faca na cozinha, ou um grilo com 7 vidas! Ah pois é, tomá lá, que é para ver como não é bom tratares mal as pessoas. Tomaaa!
Outra coisa que não dá para perceber. Eu, que passo a vida a matutar, a comentar com os botões ou mamilos (conforme a roupa), e só noutro dia é que me apercebi de algo. Tanto tempo para perceber uma coisa tão importante: eu sou o sonho de qualquer mulher! Sou, porque eu como e como, e como ainda mais e não engordo! Vá-se lá perceber.